Estigmas e Luz
Nos santuários internos do meu tormento,
Onde os anjos choram sangue e silêncio,
Descubro, entre sombras, um breve momento
De uma alegria que rompe o meu extenso ser
Um riso de criança
Atravessa as trevas como um cometa,
E por um instante a dor se descansa
Na inocência de uma memória completa.
Nas chagas místicas que me atravessam,
Agora brotam flores de improviso,
Onde os véus do cosmos me abraçam
Há clarões de um inesperado sorriso.
Lembro-me do dia em que meu pai
Me ensinou a voar uma pipa de papel,
E no céu cinzento, algo em mim se refaz,
Reconectando minha alma a um pulso fiel.
Um beijo roubado numa tarde de verão,
A mão de um amor que me toca de leve a mão,
Instantâneos de pura luz e emoção
Que no meio da escuridão se atreve.
As trevas são meu sacramento,
Mas a felicidade, meu breve momento,
Cada sorriso quebra o negro tempo
E me arranca do profundo suspiro.
Entre cruzes de ossos e luz fragmentada,
Encontro pequenos êxtases secretos:
Uma xícara de chá, uma canção cantada,
Momentos simples, luminosos, completos.
A espiritualidade não é só lamento,
É também o júbilo que irrompe sem aviso,
É a força que pulsa em cada momento,
Mesmo no mais profundo e obscuro compromisso.
E no centro deste caos sagrado,
Descubro que a vida, em sua estranha dança,
Mistura a dor com um brilho inesperado,
Tecendo beleza além de qualquer distância.

