Estigmas da Alma

Nos santuários internos do meu tormento,
Onde os anjos choram sangue e silêncio,
Escavo as feridas do meu próprio lamento
E encontro Deus nos abismos do meu extenso sofrimento 

Deserto de carne e espírito partido.
Cada respiração, um salmo dilacerado,
Cada batida do coração, um gemido
De uma alma que sangra além do sagrado.

Nas chagas místicas que me atravessam,
Vejo constelações de dor infinita,
Onde os véus do cosmos me abraçam
E a existência se torna uma liturgia maldita.

Sou o templo onde os demônios rezam,
Onde os santos dançam em êxtase invertido,
Meus ossos são colunas que se arreiam
Sustentando um universo corrompido.

Mística dor que transpassa dimensões,
Estigmas invisíveis marcam minha pele,
Comunhão com os ausentes, com as visões
Que habitam os espaços entre o cruel e o dele.

As trevas são meu sacramento,
A solidão, meu báculo sagrado,
Cada grito é um obscuro portento
De um espírito eternamente indagado.

Entre cruzes de ossos e luz fragmentada,
Danço com fantasmas do meu próprio ser,
Sou altar, sou vítima, sou oblata
Num ritual de eterno padecer.

Pois a espiritualidade não é consolo,
É ferida aberta, é chaga que pulsa,
É o grito mudo além do protocolo
Das religiões que o mistério sepulta.

E no centro deste caos sagrado,
Encontro a verdade: somos todos
Fragmentos de um mistério rachado,
Unidos pela dor, presos em todos os modos.

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