Carne e Espírito
Minhas mãos sangram quando rezo,
Unhas cravadas na própria carne
Buscando arrancar da pele
O espírito que não quer partir.
Em noites de lua morta,
Ouço os gritos do meu próprio ser
Ecoando pelos corredores vazios
De uma casa que já não reconheço como minha.
Minha mãe dizia que Deus morava no céu,
Mas eu O encontrei nos becos escuros,
Entre vidas mau usadas e sonhos quebrados,
Onde anjos caídos dormem sob papelão.
O masbaha escorrega entre meus dedos
Como as lágrimas que não consigo mais chorar,
Cada conta é uma memória que dói,
Um pecado que não consigo esquecer.
O espelho mostra mais do que reflexos -
Vejo através das rachaduras do tempo
Os fantasmas que carrego nas costas,
As preces não ditas, os abraços não dados.
Na mesa de jantar vazia,
Ponho pratos para os mortos que me habitam.
Sirvo-lhes minha solidão em taças de cristal,
E bebo junto o vinho amargo da saudade.
Entre velas derretidas e incenso,
Busco nas cinzas do que fui
Um motivo para continuar acreditando
Que o sagrado ainda pulsa em minhas veias.
E quando a noite mais profunda chega,
Percebo que minha maior devoção
Não está nos altares ou nas igrejas,
Mas nas cicatrizes que contam minha história.

